Um lugar no paraíso

Certa noite eu havia combinado com a Ana que sairíamos cedo, no sábado pela manhã, em direção ao centro da cidade. Dirigindo nosso carro há tão pouco tempo, eu não queria me arriscar sozinho por aquelas ruas, em meio a um trânsito caótico. Tudo certo… mas, no dia seguinte, ao nos prepararmos para sair, eis que minha pequena Clara, simplesmente bateu o pé: “Eu não vou mamãe, eu não quero sair!” Aos quatros anos ela já sabe alguma coisa sobre o querer… Não fomos capazes de fazê-la pensar diferente…de colocá-la em nossa fôrma toda prontinha. Saí sozinho em direção à loja de molduras para encomendar o imenso quadro da associação beneficente. Encarei minha odisséia. Fiquei bastante chateado com os caprichos da minha filha, enquanto certamente ela estaria bem feliz, assistindo o seu desenho animado preferido, bem ao lado da mamãe! Era o que pensava indo de cara amarrada para o estabelecimento. Serão mesmo caprichos? Lá chegando, me deparei com uma placa onde estava escrito: Molduras Paraíso. O dono me recebeu com o mais sonoro bom dia que eu já havia recebido nesta vida! Respondi em mínimos decibéis: bom dia!  Momentos depois,  eis que chegou à loja uma moça acompanhada de sua mãe. Viemos trazer o quadro! Foram abrindo lentamente um tecido todo bordado à mão com a imagem do Sagrado Coração de Maria. Ficamos eu e o senhor que me atendia  paralisados diante da imagem. Segundos depois, ele disse à moça: mas você é uma artista! Ao que ela respondeu: eu só bordo nas horas vagas! Obrigada! E sorriu! Ficamos ali a contemplar aquela obra de arte nesses raros instantes de silêncio que nos fazem sentir um pouco a eternidade. Meu coração foi se acalmando sem que eu percebesse e uma sensação de liberdade foi tomando conta de mim, porque a beleza ali, inesperadamente, veio emoldurar o meu dia.

30/08/11


Para o futuro

Ontem o Jornal Nacional exibiu uma matéria comovente, continuação da primeira, exibida há treze dias atrás e que falou de uma descoberta nos subterrâneos do Congresso Nacional em Brasília. Trabalhadores encontraram nas paredes, mensagens escritas a lápis há mais de cinqüenta anos, por aqueles primeiros homens que se dispuseram chegar ao cerrado brasileiro, bem no coração do Brasil. Quem sabe alguém, um dia, reconheceria naquele espaço, pegadas de gigantes. Esses guerreiros foram muito bem retratados na escultura, “Os Candangos” do artista Bruno Giorgi. Ela se encontra imponente na Praça dos Três Poderes. Simboliza a coragem e a força de homens que lutaram para a construção de um sonho.

Alri, filha de um desses desbravadores, vendo a primeira reportagem, enviou um emocionado email ao site do jornal. Saiu de Santa Catarina para ver de perto aquelas inscrições e encontrou a mensagem deixada por seu pai, José Silva Guerra, tanto tempo atrás. Eu a reproduzo aqui:

“Que os homens de amanhã que aqui vierem tenham compaixão dos nossos filhos e que a lei se cumpra”.

Com lágrimas nos olhos concedeu uma bonita entrevista contando um pouco mais da vida do seu pai, enquanto eram exibidas de maneira muito delicada, fotografias da família. Antes de se despedir, ela pede novamente para descer as escadas até aquele subterrâneo e, ali, num gesto de reverência, beija a mão e a passa por sobre aquelas palavras com carinho e saudade.

Assistam, porque a televisão nos brinda muitas vezes com esses mágicos e poderosos instantes, fazendo da notícia momentos de encontro.

Concluo esta crônica lembrando do meu pai, Seu Tasciano, que faleceu há quase dois anos… descobri que a saudade se faz de presenças e essa linda reportagem confirmou isso.

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/08/filha-de-operario-que-ajudou-construir-brasilia-reve-mensagens-que-ele-deixou-no-congresso.html

23/08/11.


Duas vidas

“E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar…”

Aquarela. Toquinho.

 O sinal fechou. Uma moça bem magra aparentando uns dezoito anos e olhar perdido caminhava  por entre os carros com as mãos estendidas. O fato de estar grávida provocou em mim e sinto que nos outros motoristas também, uma desconfortável e estranha sensação. Era como se eu me recusasse a vê-la  e dar esmolas a ela, como se quisesse dizer: por que você está aqui? Não era pra você estar aqui! Mas, antes que ela chegasse até a mim, olhei de relance para ver se encontrava alguma moeda à vista. Ela se aproximou quase sem me olhar. Fiz um gesto de não. Então, ela levantou a cabeça, olhou para um outro carro logo atrás e murmurou com os lábios: um cen-ta-vo!

Um centavo. Mas aquelas simples palavras desejavam dizer muito mais: preciso comer, estou com fome, e carrego em meu ventre uma criança. Um centavo. Eu a acompanhei pelo retrovisor. Na parte de trás de sua camisa estampado em tamanho grande, o número dois. Duas vidas. Talvez  não a veja mais e muito menos conheça sua criança. Penso nas palavras da futuróloga americana, Hazel Henderson: duas coisas não podemos mais admitir: a fome e a miséria.

                16/08/11


Confiar

Minha filha Clara é como toda criança: adora brincar! Por isso me diz de vez em quando: “papai, eu num quero dormir não!”  Quantos de nós adultos não daríamos tudo por uma caminha!? Elas que estão certas em viver tão intensamente essa maravilhosa época da vida. Pra quê dormir?

 A mãe está viajando e ontem a noite fomos eu e a Clara a uma pizzaria onde tem um parquinho, desses que as crianças entram em tubos, saem do outro lado e descem pelo escorregador a mil. Assim que chegamos ela já fez amizade com uma menininha, o que me fez lembrar de um trecho dos “Estatutos do Homem” do poeta amazonense, Thiago de Mello:

 (…)

 “O homem, confiará no homem

como um menino confia em outro menino.” (…)

 Há muitos anos conheço esse poema e desde que li pela primeira vez essas palavras, percebi que ali havia algo especial.

Então, minha filha correu, pulou, brincou com sua nova amiguinha, como se conhecessem há tempos. De vez em quando chegava perto de mim pra comer uma batatinha frita, ou beber um gole de suco.  

 Aí acordamos hoje com esse tempo bonito aqui em Belo Horizonte, sol radiante em toda sua majestade, clareando nossa vida, iluminando nossos passos!

 A Clara levantou cedinho e ficamos a conversar:

 _ Papai eu quero ir no parquinho todos os dias, tá bom?!”

 _ Todos os dias filha?

 _ Sim!

 _ Mas você vai se cansar de ir lá!

 _ Num vô não, papai!

janeiro de 2011. 

Um abraço.

 Pra quem ainda não leu os Estatutos do Homem recomendo escutar no You Tube na voz do grande poeta.


Existe

Existe o Pico da Neblina e existe a ponta do Monte Everest, um montinho de neve que se desfaz a cada vento que sopra. Existe tanta coisa nesse mundo tão pequeno. Pequeno apenas diante do microscópio! Entenda!

Existe a flor que nasce no jardim da vizinha. Nunca a vi de perto. Existe o abridor de latas e existe quem se esqueceu de levá-lo! Existe uma palavra. Uma? Não, milhares de sons. Existe a roda gigante. Existe o mês de maio. As provas da escola. Existe o que ainda nem aconteceu. Mas isso eu não conto de jeito nenhum.

Existe o poeta e a pipoca. Existe o meu pé. Existe o estalar dos meus dedos. Existe memória por muito tempo ainda! Quem sabe, eternamente! Existe uma velha senhora que mora nos campos de arroz da Tailândia. Ela vive. Existe aquele velho chinês que anda de bicicleta só de vez em quando. Ele prefere vender papéis. Poucos querem comprar.

Existe o músculo cardíaco. Existe muita presença por aqui. Existe aquela música que só ouvi uma única vez. Nunca mais. Pelo menos o sol estava se pondo naquela hora. Existe o Mar Morto. Existe a Galiléia. Lindo nome para um lugar. Existe o tempo congelado num segundo de tempo. Parada pra pensar? Existe o gesto. Muitas coisas no singular, e outras no plural. Existe o que se perdeu. Quem diria! Não fossem os velhos historiadores! Existe essa idéia que surge. Essa idéia que às vezes ruge. Existe o eclipse. O si. O eu. O aguilhão. Ora, ora…

Existe o meteoro que nem chegou à Terra. Os astronautas do futuro? Onde estarão? Existe o mínimo múltiplo comum. Existe a vírgula. O ponto de reclamação. Existe. Pode crer que existe. A paz dos anos 70. O amor de anos totais. O amor de anos legais.

Existo. Você também.

Ele Existe. Arquiteto do Divino Sol e do Eterno Começo. Ele juntou todos os átomos e móleculas e expandiu tudo em criação e coração. Existe vibração. Existe a vida.

agosto de 2004.


O filho do seu menino

“Eita, na virada do tempo
Um pai tira versos de amor
A vida pode ser dura, mas tem momentos de alegria
que há poesia batendo à porta do sonhador…”

Jair Rodrigues

Saí sábado de manhã com minha filha Clara. Fomos a uma das melhores praças de Belo Horizonte: a praça da assembléia. É um lugar bastante especial: um grande espaço aberto com árvores, parquinho bem cuidado, cachorros de muitas raças passeando com seus donos e muita, muita criança! E elas interagem bastante, pulando, brincando na areia, ou andando de bicicleta. A Clara aproveitou bastante, ficou um tempão no balanço: “pai, mais alto, mais alto, tá bom?!” Seus cabelos ao vento e seu lindo sorriso me fizeram sentir que a liberdade existe sim.                  

Ali, momentos depois, fiz questão de contar quantos pais, homens, estavam sozinhos com seus filhos. Fui em cada canto da praça: vinte e cinco, contando comigo, é claro. Num universo de umas cento e trinta pessoas entre adultos e crianças, é um número bastante expressivo. Lá estavam eles com seu jeito meio desengonçado quando é preciso carregar o bebê. Lá estavam com suas imensas olheiras; seu jeito manso e calado, torcendo pras mães chegarem logo; mas fazendo também, o melhor que podem pra agradar a seus filhos. Pensei depois nos primeiros homens… saíam de suas cavernas para enfrentar o grande mastodonte, quem sabe o tigre de bengala. A mulher cuidando dos filhos até ele chegar, suspirava aliviada com seu retorno. Sob sol, sob chuva, caminhavam por dias e dias, trazendo para casa finalmente, a presa abatida. Talvez por isso ainda muitos homens prefiram o descanso entre os amigos, ou o futebol, sabendo que os filhos estão em boas mãos, nos braços da mãe. Hoje são outros tempos, e sempre me chama a atenção quando vejo algum pai com o filho no colo, em alguma manhã de fim de semana. Nada como dar uma folga para a mãe! Como dizia um antigo comercial de TV: “não basta ser pai, tem de participar!” Vejo nessas cenas do cotidiano, essa entrega que se faz com amor, quando se tem filhos. Faça sol, faça chuva.

O que eu desejo? Mais amor, mais tempo para nossas crianças, mais praças, para que possamos quem sabe, comer um delicioso algodão doce em companhia delas, como fiz ao lado da Clara.

Dedicado ao dia dos pais.

Meus prezados e queridos amigos, o grande Jair Rodrigues gravou “O filho do seu menino” junto com sua filha Luciana Mello. Linda música. À época ela tinha 5 anos de idade. Para quem quiser e tiver um tempo, segue um link com uma apresentação deles:

http://letras.terra.com.br/jair-rodrigues/924279/


O que nos alegra

“Eu vos abraço, ó milhões!
Lanço um beijo ao mundo inteiro!
Irmãos, acima das estrelas do céu
Um Pai bondoso tem sua morada.” 

Trecho de “Ode à Alegria”. Friedrich Schiller

 Tenho muitas lembranças de minha infância. Nos fins de semana, impressionava-me a claridade do sol da manhã e o cheiro de cera fresca pela casa. Minha mãe deixava o chão um brilho só. Em minhas recordações, cada sábado, era dia de muita claridade, casa limpa e rádio ligado. Para que nada se sujasse tão rapidamente, havia folhas de jornal espalhadas pra todo lado. Eu ficava maravilhado em ver tantas notícias debaixo dos meus pés. Na hora de recolhê-los, vez ou outra, eu salvava alguns daqueles papéis: notícias do mundo. Até hoje tenho grande predileção por ler jornais de 10, 15 anos atrás, como se fossem notícias fresquinhas de ontem…

Dia desses num consultório médico, nesse ano de 2006 que vai ficando para trás, eu me deparei com uma revista que trazia uma bela crônica sobre a vida de Beethoven, o genial músico do século XVIII e de todos os tempos. Fiquei encantado com sua história e decidi ali mesmo, que eu também escreveria contando um pouco de sua vida. Resolvi então levar a crônica para minha casa. Uma atitude não muito recomendável num ano que já estava terminando…

Imaginem vocês que Beethoven já começava a ficar surdo quando começou a compor sua obra-prima: A Nona Sinfonia. Inspirada por um poema do filósofo Friedrich Schiller, Ode à Alegria, que pregava a fraternidade entre os homens, ele tentou, durante anos, musicar esses belos versos. Até que, por volta de 1822, começou a adquirir forma sua partitura, onde, no 4º movimento, aparece uma melodia que é talvez, a mais popular da música ocidental e que canta com grande beleza, a força e o entusiasmo de um coração alegre, unido a outros corações. Um abraço a toda a humanidade como Schiller e Beethoven desejavam. Em 7 de maio de 1824, em Viena, ao término da execução da Nona, um indiferente Beethoven, completamente surdo, folheava distraído as últimas páginas da partitura. Foi preciso que alguém alertasse o maestro, tirando-o de seu silêncio, para que ele pudesse contemplar o êxtase provocado nesta distinta platéia.

Escutar é um milagre. Já faz alguns anos assisti a uma reportagem que contava a história de uma mulher americana que havia nascido com uma rara síndrome que causava surdez. Os cientistas conseguiram implantar um chip em seu ouvido e assim ela pôde se maravilhar desde aquele instante, com muitos e muitos sons. Então, em uma das cenas, ela se emocionava ao folhear as páginas do livro de historinhas de sua filha e escutando: flap, flap, flap…

Voltando ao consultório. Estava eu ali, decidido a levar a bela crônica para casa. Fui rasgando lentamente as páginas… eu nem consigo reproduzir o som que se fazia, enquanto meus olhos passavam de um lado ao outro, por toda a sala. Um casal conversava distraidamente à minha frente. A cada rasgada, um silêncio. Até que, enfim, o texto estava em meu poder! Momentos depois tive de olhar para os lados mais ainda. Já pensou se havia alguma câmera me filmando?! Foi o que pensei! O que eu diria se fosse pego? — Olha aqui, é que eu não resisti a essa crônica do Beethoven! Mas, eu prometo que contarei também a vida dele! Além disso, trarei outra revista em prova do meu agradecimento!

É por isso que a vida é tão bela e que nos alegra!

janeiro de 2007.

 * No filme “Minha Amada Imortal” que conta a vida de Beethoven é reproduzida a cena em que o grande compositor é aplaudido de pé após a execução da Nona Sinfonia. Em minha opinião, uma das mais bonitas do cinema mundial.