O que nos alegra

“Eu vos abraço, ó milhões!
Lanço um beijo ao mundo inteiro!
Irmãos, acima das estrelas do céu
Um Pai bondoso tem sua morada.” 

Trecho de “Ode à Alegria”. Friedrich Schiller

 Tenho muitas lembranças de minha infância. Nos fins de semana, impressionava-me a claridade do sol da manhã e o cheiro de cera fresca pela casa. Minha mãe deixava o chão um brilho só. Em minhas recordações, cada sábado, era dia de muita claridade, casa limpa e rádio ligado. Para que nada se sujasse tão rapidamente, havia folhas de jornal espalhadas pra todo lado. Eu ficava maravilhado em ver tantas notícias debaixo dos meus pés. Na hora de recolhê-los, vez ou outra, eu salvava alguns daqueles papéis: notícias do mundo. Até hoje tenho grande predileção por ler jornais de 10, 15 anos atrás, como se fossem notícias fresquinhas de ontem…

Dia desses num consultório médico, nesse ano de 2006 que vai ficando para trás, eu me deparei com uma revista que trazia uma bela crônica sobre a vida de Beethoven, o genial músico do século XVIII e de todos os tempos. Fiquei encantado com sua história e decidi ali mesmo, que eu também escreveria contando um pouco de sua vida. Resolvi então levar a crônica para minha casa. Uma atitude não muito recomendável num ano que já estava terminando…

Imaginem vocês que Beethoven já começava a ficar surdo quando começou a compor sua obra-prima: A Nona Sinfonia. Inspirada por um poema do filósofo Friedrich Schiller, Ode à Alegria, que pregava a fraternidade entre os homens, ele tentou, durante anos, musicar esses belos versos. Até que, por volta de 1822, começou a adquirir forma sua partitura, onde, no 4º movimento, aparece uma melodia que é talvez, a mais popular da música ocidental e que canta com grande beleza, a força e o entusiasmo de um coração alegre, unido a outros corações. Um abraço a toda a humanidade como Schiller e Beethoven desejavam. Em 7 de maio de 1824, em Viena, ao término da execução da Nona, um indiferente Beethoven, completamente surdo, folheava distraído as últimas páginas da partitura. Foi preciso que alguém alertasse o maestro, tirando-o de seu silêncio, para que ele pudesse contemplar o êxtase provocado nesta distinta platéia.

Escutar é um milagre. Já faz alguns anos assisti a uma reportagem que contava a história de uma mulher americana que havia nascido com uma rara síndrome que causava surdez. Os cientistas conseguiram implantar um chip em seu ouvido e assim ela pôde se maravilhar desde aquele instante, com muitos e muitos sons. Então, em uma das cenas, ela se emocionava ao folhear as páginas do livro de historinhas de sua filha e escutando: flap, flap, flap…

Voltando ao consultório. Estava eu ali, decidido a levar a bela crônica para casa. Fui rasgando lentamente as páginas… eu nem consigo reproduzir o som que se fazia, enquanto meus olhos passavam de um lado ao outro, por toda a sala. Um casal conversava distraidamente à minha frente. A cada rasgada, um silêncio. Até que, enfim, o texto estava em meu poder! Momentos depois tive de olhar para os lados mais ainda. Já pensou se havia alguma câmera me filmando?! Foi o que pensei! O que eu diria se fosse pego? — Olha aqui, é que eu não resisti a essa crônica do Beethoven! Mas, eu prometo que contarei também a vida dele! Além disso, trarei outra revista em prova do meu agradecimento!

É por isso que a vida é tão bela e que nos alegra!

janeiro de 2007.

 * No filme “Minha Amada Imortal” que conta a vida de Beethoven é reproduzida a cena em que o grande compositor é aplaudido de pé após a execução da Nona Sinfonia. Em minha opinião, uma das mais bonitas do cinema mundial.

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