Duas vidas

“E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença
Muda a nossa vida
E depois convida
A rir ou chorar…”

Aquarela. Toquinho.

 O sinal fechou. Uma moça bem magra aparentando uns dezoito anos e olhar perdido caminhava  por entre os carros com as mãos estendidas. O fato de estar grávida provocou em mim e sinto que nos outros motoristas também, uma desconfortável e estranha sensação. Era como se eu me recusasse a vê-la  e dar esmolas a ela, como se quisesse dizer: por que você está aqui? Não era pra você estar aqui! Mas, antes que ela chegasse até a mim, olhei de relance para ver se encontrava alguma moeda à vista. Ela se aproximou quase sem me olhar. Fiz um gesto de não. Então, ela levantou a cabeça, olhou para um outro carro logo atrás e murmurou com os lábios: um cen-ta-vo!

Um centavo. Mas aquelas simples palavras desejavam dizer muito mais: preciso comer, estou com fome, e carrego em meu ventre uma criança. Um centavo. Eu a acompanhei pelo retrovisor. Na parte de trás de sua camisa estampado em tamanho grande, o número dois. Duas vidas. Talvez  não a veja mais e muito menos conheça sua criança. Penso nas palavras da futuróloga americana, Hazel Henderson: duas coisas não podemos mais admitir: a fome e a miséria.

                16/08/11

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