Horário Nobre

Sempre gostei de ver televisão. Já vi tanta coisa bonita que ficou gravada em minha memória e em meu coração. Há alguns anos atrás, o Brasil produziu uma televisão de altíssimo nível. As programações eram mais singelas, até mesmo ingênuas e bem pouco invasivas. Do início dos anos 90 até os dias de hoje, as coisas só foram piorando, dando lugar a muitos absurdos e gerando uma enorme discrepância entre o que o público verdadeiramente quer ver e o lixo que se mostra fácil porque é fácil de produzir e mostrar. Sempre acreditei na televisão como um instrumento de formação de um sentido estético mais elevado. Acredito de fato, que ela possua a capacidade de nos alimentar com o lúdico, o belo, o comovente, movendo-nos para as esferas do encantado, da beleza, da leveza, sem alienar. Mas, para que isso aconteça é preciso que tenhamos ao nosso alcance uma programação cuja finalidade seja, não somente entreter, mas também ensinar.

Um telespectador mais atento é capaz de perceber a sutil influência exercida por uma TV ligada. Há estudos que comprovam isso. Ela é capaz de hipnotizar as pessoas e gerar um considerável grau de dominância sobre mim, sobre você, quase todos. Hipnotizar no sentido de alienar, lançar-nos para fora de nós de mesmos e subliminarmente manipular-nos sem que tenhamos consciência plena disso. À frente de uma televisão ligada, mastigamos sem sentir o sabor dos alimentos, falamos sem nos fazer entender, quase não escutamos. Atualmente, é lamentável ver tantos pais chegando em casa exaustos do trabalho, mas, logo acionando o controle remoto em busca de algo que possa aliviar as duras batalhas da vida. Enquanto o jantar é preparado, os filhos estarão mergulhados, diria até, atolados, num mar de imagens, cores e sons à frente de um computador que pisca sem cessar.  Por horas e horas, estarão ali, esquecendo-se de si, do tempo. Porque estamos deixando a sala de jantar tão vazia? Porque estamos deixando que isso aconteça com as novas gerações, quase sem nada fazer?

Acredito que a televisão deve ser pouco assistida, até mesmo ligada. A não ser que seja para ver algo que realmente valha a pena, deixando que a arte nos comova e nos mova para além de tanta mediocridade. Alimentando nosso espiríto em direção ao belo, ao edificante. Juntamos a família e em silêncio contemplamos, aprendemos, quase não conversamos, pois deixaremos que as imagens falem por nós, que a beleza fale por nós, formando-nos em direção a um sentido estético mais elevado, límpido e harmonioso. Depois vem a conversa, a reflexão, a descontração.

Melhor será deixar as crianças distantes da novela das oito, das propagandas enganosas e cheias de truques. Melhor será brincar com os filhos, escutá-los, conhecendo suas histórias, aproximando, trazendo-os para mais perto, quem sabe tomando uma deliciosa sopa juntos, em família. Quem sabe saindo um pouco para ver o luar. Isso sim, é ter um horário nobre.

Eduardo Augusto Batista dos Santos

Formado em Filosofia

Atualmente trabalha na área de recursos humanos de uma grande empresa.

21/06/11

Anúncios

3 Comentários on “Horário Nobre”

  1. Ivan de Souza disse:

    Belo e contundente texto, mesmo sendo escrito com esta singeleza e elegância, mostrando os perigos a que estamos expostos, nós, usuários da tv, bem como, e principalmente, os telemaníacos viciados, os filhos adotados pela babá eletrônica, os desavisados de sempre. Muito bom, Eduardo Augusto!

  2. Érica disse:

    E viva o brincar em família ! Abraço Eduardo


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s