A mão que conduz

Certo dia chamei minha filha Clara e segurei sua mão. Queria mostrá-la algo. Nesse instante, entendi pela primeira vez, o que quer dizer a palavra pedagogia, vocábulo surgido na Grécia Antiga, e que traduz o ato de ensinar. Os primeiros pedagogos eram os escravos que levavam as crianças pela mão, mostrando-lhes ao longo do caminho (agogé); de que eram feitas as pedras, suas formas e cores, os diversos pássaros e plantas, os insetos, como era a própria vida se descortinando aos olhos dos pequenos pupilos.

(…)

As crianças percebem o mundo de uma maneira bem diferente da dos adultos e na maioria das vezes elas só querem brincar. O ato de brincar é para elas a melhor forma de se apropriar do mundo. Nada de comer ou beber, nada de dormir. Observe numa festa de aniversário, como as crianças se comportam, sobretudo as pequenas. As mesas ficam cheias de docinhos e salgadinhos, enquanto elas correm pra lá e pra cá e se divertem à beça. Os adultos é que vão se deliciar com o cardápio.

No ano passado, eu estava dentro de um restaurante aguardando numa mesa minha esposa servir seu prato e o da Clara, quando à minha frente observei uma mãe, seguida de um menino de uns 7 anos de idade. De repente, sem mais nem menos, ela deu um forte puxão de orelha na criança que se entristeceu profundamente. Ele ficou um bom tempo colocando as mãos no local já bastante vermelho, enquanto sua mãe proferia xingamentos segurando um prato de comida. Mantive meu olhar fixo em direção à mesa onde se assentou o casal e fiquei imaginando o que poderia ter provocado aquela reação tão repentina. Pensei seriamente em me levantar e dizer umas verdades a ela, tamanha era  minha indignação. Às vezes,  as crianças testam seus pais para ver se eles têm mesmo “nervos de aço”.

Certa feita foi num supermercado. Uma mãe parou o seu carrinho de compras onde uma menininha pequena estava dentro e disse olhando nos olhos dela: “se você não se comportar, nunca mais eu e o seu pai te trazemos aqui!” As crianças menores não entendem o que significa nunca mais, não é mesmo? Elas vivem no agora e uma ida ao supermercado pode significar para elas um mundo novo que se abre. Já passei por esta experiência. Levar uma criança ao supermercado e querer que ela fique quieta é como soltar uma pulga no pêlo de um cachorro.           

Em outra ocasião me dirigi bem cedo a um shopping center onde precisei, juntamente com muitas outras pessoas, aguardar a abertura das lojas. Ficamos bem em frente a um loja de roupas e brinquedos onde estavam expostas muitas bonecas-bebês. Um pai de mãos dadas com uma criança de uns 2 anos e pouco passou por mim e a menininha apontou para aquele tanto de bebês; ao que o pai proferiu esta:

_ Você tá ficando do_ d_ ?  (Isso mesmo que você entendeu, caro leitor!).

_ Você acha que eu vou te dar mais boneca? Você já tá cheia de boneca! Passados aproximadamente um minuto. Vejam bem! Em um minuto quanta coisa pode acontecer… um outro pai, com uma outra menininha, chega em frente à vitrine da mesma loja, abaixa-se até abraçar sua filhinha. Ela aponta para uma boneca, e outra, e o pai pergunta: “Qual você gostou mais? Daquela? Ah, daquela ali?! Como é interessante essa vida quando passamos a observá-la com olhar atento. Podemos aprender muitas coisas e minha vontade era chamar aquele primeiro pai para dizer a ele: existe esse outro jeito de lidar, venha ver!  

Educar uma criança para a vida é uma bela e árdua tarefa, algumas vezes exaustiva, mas que nos possibilita aprender mais de nós e do próprio ser humano.

22/01/11

Dedico essa crônica ao meu amigo Daniel Torres, que ainda não é pai, mas certamente saberá sê-lo quando chegar a hora.

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2 Comentários on “A mão que conduz”

  1. Daniel Torres disse:

    Grande Dr. Eduardo. Muito obrigado pela dedicatória, fiquei muito feliz. Saiba que essa história realmente me fez refletir sobre a complexidade de ser pai. Grande abraço e sucesso, o blog está ótimo.

  2. Eduardo Augusto, sua sensibilidade em transcrever com olhos atentos acontecimentos cotidianos nos faz caminhar com você como se fossemos a Clara, de mãos dadas. Gratidão!


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