Então é Natal

Sempre gostei do Natal e das festividades de fim de ano. Um ciclo se encerra e um novo começo se aproxima. A religiosidade traz novas luzes, cresce a solidariedade, o amor ganha espaço nos corações. É tempo de olhar para trás para ver o que podia ter sido melhor, de olhar para frente e recomeçar.

Da minha infância e adolescência, guardo recordações preciosas dos festejos natalinos. Durante muito tempo minha mãe forneceu a alimentação dos detentos da cadeia de Ouro Preto, Minas, e, todos os anos, no Natal, ela preparava um cardápio especial que era servido por nós e, ali, naquele pequeno espaço, almoçávamos todos juntos. Não sem antes acompanhar atentamente a Dona Naná, beata da matriz de Nossa Senhora do Pilar, muito respeitada que, com suas preces, lembrava-nos da importância dessa festa cristã, levando àquelas pessoas enclausuradas o conforto da fé.

Certa vez, bem próximo a essa época, uma quadrilha de traficantes do Rio de Janeiro foi presa em Ouro Preto. Cheguei perto do carcereiro, da minha mãe e do meu irmão mais velho e perguntei:

– Você pretende abrir as celas?

– Pretendo!

– Você acha que não devo? – Acho! – disse enfaticamente. Ele saiu de perto de nós e percebeu nossa apreensão. Passados uns quarenta minutos, chegou perto de mim:

– Vou abrir as celas!

– Carlos, não faça isso pelo amor de Deus!

– Eduardo, fica tranquilo! Os presos não vão fugir, nem tomar ninguém de refém e já chamei o reforço. Fica sossegado, já conversei com o delegado, com o comandante! Tá tudo certo! Além disso, daqui a uns quinze dias os traficantes vão descer lá do Rio, render essa cadeia e soltar todo mundo! Presta atenção! – pelo tom da conversa, suas palavras me pareciam proféticas!

Então fomos todos para o pátio central, fizemos um círculo e nos demos as mãos. Pra todo lado que se olhava, o que se via era a polícia. Inclusive em cima dos telhados. Minha mãe e Dona Naná, calmamente, como se cumprissem um ritual, encarregaram-se de puxar o Pai Nosso seguido da Ave-Maria. Eu segurava a mão de um dos maiores traficantes cariocas àquela época e, de vez em quando, olhava para ele meio incrédulo enquanto rezava. Assim que terminou a oração ele disse: “Agora libera o rango tia! Tô morrendo de fome!”

Tudo correu bem como me dissera o carcereiro. Vencida toda a tensão inicial, os policiais iam-se revezando aos poucos para desfrutar também daquele gostoso banquete. Treze dias depois a cadeia de Ouro Preto foi rendida. Os traficantes chegaram àquelas distantes montanhas de Minas, fortemente armados e soltaram todo mundo. Não ficou um. Alguns foram recuperados mais tarde, mas toda aquela turma do Rio ninguém nunca mais ouviu falar.

Dedico este texto com todo meu carinho e amor à minha querida mãe, Dona Diva, exemplo de fortaleza, de trabalho e fé. Desejo a você mãe, saúde, paz e muitos anos de vida! Grato por tudo! Pretendo ler para minha mãe esse texto! Como fiz com meu pai Tasciano, quando dediquei a ele um texto meu.

Eduardo

22/12/11

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