Além das ervilhas

Sabe quando a gente vai a um restaurante de comida a kilo, uma fila imensa, alguém à sua frente catando ervilha pra colocar no prato, aquele calor… aí você chega em algum ponto e a pessoa que te atende é super atenciosa, solícita e aquele ligeiro mal-estar se tranforma em nada? Simplesmente por causa de uma genuína atitude de gentileza, de atenção. Essas coisas fazem a diferença!

 Eduardo

26/02/12

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Bolo de laranja

Certa vez, às sete horas da manhã, entrei numa lanchonete para tomar um cafezinho, quando parou ao meu lado um mendigo. Apontando para a vitrine ele perguntou à atendente: de quê que é esse bolo? Ela respondeu: de laranja! Ao que o mendigo retrucou: Ah não! Ataca minha gastrite! Se fosse de chocolate, de morango! Mas de laranja?! Não, não!

E saiu como entrou, para ficar na história.

Eduardo

28/02/12 


Click

Sempre gostei de fotografia. Como muita criança fiz pose, caras e caretas. Lembro-me também da primeira vez em que fotografei. Comprei uma Kodak Instamatic e paguei em três vezes com todos os centavos da minha humilde mesada. Valeu muito a pena.

Eu achava as câmeras inventos engenhosos. Por isso, vez ou outra eu  abria a minha para entender um pouco seu funcionando. Às vezes a virava em minha direção, simplesmente para ver, repetidamente, o obturador abrir e fechar, numa fração de segundos. Graças a ele, a luz imprimiria sua marca naquela fina película…

A 1ª foto? Meu irmão apontando pro ônibus: “mãe, tá vindo, olha!” Lembro-me nitidamente da emoção que senti ao fazer esse registro e de seguirmos viagem rumo ao centro da cidade. Carreguei minha primeira câmera, como meu primeiro troféu. Depois dessa foto, vieram centenas de outras que registraram rostos, lugares, emoções, almoços e muitas comemorações; não só em família. Tantas fotos fiz que, até hoje, quando chego na casa de algum tio, parente ou de uma pessoa bem próxima, sempre alguém pergunta pela câmera, ou se recorda de algum registro.

Momento revelador: a ida ao laboratório era sempre empolgante! Abrir ali mesmo o envelope. Que sensação agradável! Ver, rever, mostrar para a família. Colocar em ordem as fotos do albinho… hoje, quase ninguém imprime suas fotos… Acreditamos que nossos arquivos virtuais estarão imunes à ação do tempo e à infalibilidade dos equipamentos.

Outro dia estava pensando em Ronaldo, o Fenômeno. Acredito que não tenha um dia sequer, sem que ele seja fotografado por alguém. Colocou os pés para fora de casa, lá vem alguém com a maior cara de felicidade pedir uma foto com o craque! Isso, sem falar do autógrafo. Confesso que se o encontrasse também, não deixaria por menos. Meus netos vão precisar saber que estive ao lado de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos.

Fotografia hoje é assim: clicou, todo mundo pede pra ver a foto na hora! A surpresa continua a mesma. Só que agora, ela é instantânea. Se ficou ruim, por favor, deleta! E aquele recurso incrível que atualmente as câmeras possuem: smile shutter. Um sensor reconhece seu sorriso. Alguns equipamentos reconhecem até mais de um. Então, aqueles quadrinhos ficam vibrando na telinha até o mágico instante do click. Em um segundo a eternidade estará guardada. Fotografias, retratos do tempo…

Eduardo

16/02/12.

Ao escrever senti saudades da minha Kodak Instamatic.

Dedico essa crônica à minha amiga Henriette Mourão, que a cada click, descobre o novo da vida.


O que falta ainda acontecer?

Um dia estávamos eu e minha esposa no centro da cidade, carregando um monte sacolas e embrulhos, subindo uma rua, quando perguntei a ela: Ana, o que falta ainda acontecer? Ela respondeu despretensiosamente: Nada! No mesmo instante, um rapaz parou ao lado dela e disse: posso carregar as sacolas pra senhora? Por algum momento, ficamos paralisados. Tanta solicitude recebeu de nossa parte um sorriso de volta!

Claro, pode sim _ disse ela.

Enquanto aquele jovem dividia conosco todo o peso, falava um pouco de sua vida, o que fazia, onde morava, que sonhos desejava realizar. Assim que chegamos ao carro, nos despedimos, com a certeza de que a vida nos reserva muitas surpresas.

O que falta ainda acontecer? Uma flor desabrochar, um perdão chegar. O arroz queimar e mesmo assim ficar gostoso. Uma inesperada visita aparecer depois de tanto tempo.

O que falta ainda acontecer? Seu pai dizer que te ama, você passar no vestibular. Surgir uma vaga para estacionar no centro da cidade, em horário de pico. Você descobrir uma deliciosa receita com chuchu.

O que falta ainda acontecer? A chuva desabar assim que você chegar em casa. Você ganhar na loteria, mas, se você jogar. Alguém dizer que você está linda, justo naquele dia em que você estava mais desanimada. Estava.

O que falta ainda acontecer? A guerra e a fome acabar. A corrupção ser coisa do passado.

O que falta ainda acontecer? Você pular de pára-quedas ou voar num balão? Nem uma coisa nem outra. Talvez viajar para o Casaquistão?

O que falta ainda acontecer? O policial parar o seu carro numa blitz, mas, ao ver o bebê dormindo na cadeirinha, dar um sinal pra você seguir em frente.

O que falta ainda acontecer? Você ser promovido ou precisar falar em público inesperadamente? Nada disso. Começar a praticar yoga para acalmar a mente.

O que falta ainda acontecer? Seu livro ser um sucesso, mas, se você publicar. Alguém te pagar um pastel com um caldo de cana. Você ganhar uma festa surpresa de aniversário.

O que falta ainda acontecer? Você descobrir uma foto antiga dos tempos de criança, algum cientista tentar provar que a máquina do tempo foi finalmente inventada?

O que falta ainda acontecer? Você descobrir numa 4ª feira qualquer que você se ama apesar de tudo e que nesse dia sua mãe fará uma deliciosa sopa como parece nunca ter feito.

O que falta ainda acontecer? Esta crônica, com gostinho de quero mais, terminar.

 Eduardo

15/02/12

Dedico este texto aos meus amigos Roberta e Gledson.