Mandando beijinhos

Já faz um tempo que eu acompanhava a vida de Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina. Creio que, desde o momento em que vi, palestinos com pedras e bodoques nas mãos, enfrentando israelenses armados de fuzis. Eu pensava que alguma coisa devia estar errada, inclusive o ódio.

Lembro-me claramente, quando há uns 9 anos atrás, Arafat teve permissão para colocar os pés em Belém, na Terra Santa. Ele foi com a família, levando também sua filhinha. Na Gruta da Natividade, sorriu e posou para os fotógrafos, sentado no chão com a menina, bem próximo à estrela que representa, segundo os cristãos, o local exato onde Jesus teria nascido. Uma cena muito bonita! Parecia uma brincadeira!

Da primeira vez em que ele discursou na Sede das Nações Unidas em Nova York, em 1974, levantou o braço em punho e disse em inglês: eu sou um rebelde! Depois, em 1988, num discurso nesse mesmo parlamento, viria renunciar à luta armada. Pensei comigo: “Os brutos também amam!”

Os Acordos de Oslo, nos anos 90, deram início a um novo processo de paz entre palestinos e israelenses. Nos jardins da Casa Branca, Arafat e Yitzhak Rabin selam esses acordos e assinam “A Paz dos Bravos”, apertando-se as mãos. Uma cena que me marcou e creio que também a milhões de pessoas. Em 1994, os dois, juntamente com Shimon Perez, receberam o Nobel da Paz em reconhecimento aos esforços pela busca de uma solução pacífica para os conflitos.

O caminho da concórdia pode ser longo. Ter idas e vindas. Em 1995, Yitzhak Rabin, após cantar junto com a multidão a “Canção da Paz” num comício, foi assassinado com um tiro no peito por um judeu radical. Em várias partes do mundo, jornais e revistas exibiram um símbolo daqueles tempos; a canção que ele havia guardado no bolso, manchada de sangue, com um buraco de bala bem no meio. Tempos depois, aqui em nosso país, conheci uma brasileira que estava lá naquele instante. Ela me falou da comoção que tomou conta das pessoas ali. Daquele momento em diante houve um grande retrocesso nas relações, com retaliações de ambos os lados.

Quando Arafat esteve no Brasil, em 1988, a jornalista Marília Gabriela o entrevistou.  Perguntou a ele, como era para um povo viver 40 anos sem ter uma terra. Ele disse enfaticamente: “Mas nós temos! É a Palestina! É a Palestina!

Quando eu via pela televisão ou pelos jornais, notícias do mundo de lá, pensava comigo sobre o que faria se tivesse um pedacinho de terra e ele fosse invadido! Pensava numa solução e nem sempre encontrava respostas diante dos possíveis dilemas e desencontros desta  vida.

Já doente, rumo a Paris, para onde iria se tratar, Arafat se despediu do povo palestino, onde ficava seu quartel-general em Ramallah, jogando beijinhos para a multidão! Coisa que comumente ele fazia, quando cercado pelo seu povo. Um líder amado por sua gente, tantas vezes levando a esperança, essa, que navega corações: de bravos e de mansos!  Penso: não é pouca coisa ganhar o Nobel da Paz! Afinal de contas, “somos todos iguais, braços dados ou não… quem sabe faz a hora, não espera acontecer” como disse o compositor Geraldo Vandré. E que essa hora volte para palestinos e judeus, na Terra Santa.

Que haja amor e paz para todos nós!

Eduardo Augusto

12/11/04.

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One Comment on “Mandando beijinhos”

  1. Lucas Augusto Monteiro de Castro disse:

    Bela reflexão sobre um conflito que, como os demais, ainda assola a vida humana. Como todo bom escritor, o amigo mostra a índole do pacifista que cada um de nós pode reconstruir! Um abraço!


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