Infâncias

Minha infância em Ouro Preto-MG foi muito rica. Como a da maioria das pessoas que viveram ou vivem no interior, brinquei muito: joguei bola e birosca na rua, andei de carrinho de rolimã, soltei pipa…. A gente se divertia muito! Não é força de expressão, não.

Uma das histórias que mais me marcou na Praia do Circo era a nossa saída de casa à noite, para catar escorpiões nos bancos de pedra da praça. A criançada toda se reunia em volta dos irmãos Luiz e Ricardo, que executavam a tarefa com maestria. Sem medo nenhum, eles tiravam dos esconderijos, com palitos desses de churrasquinhos, essas pequenas criaturas tão temidas. Colocavam-nos em seguida, em vidros de maionese que, aos poucos, iam enchendo. Era mágico e assustador ver tão de perto todas aquelas garras e ferrões.

Tamanha era a quantidade colhida, que mesmo o mais corajoso dos homens, ao ver aquela cena, pensaria duas, três vezes, antes de chamar a namorada para ali sentar. Não me perguntem o que era feito depois com os escorpiões! Verdade é que, nunca, nenhum de nós daquela turma foi picado.

Outra vez, jogávamos futebol à noite na rua, bem em frente onde hoje fica a prefeitura da cidade. Para vocês verem que criança não tem hora pra brincar. Carro, só de vez em quando passava um. Os chinelos eram as traves e artilheiros não faltavam.

Certa vez, no meio de toda aquela empolgação, um colega nosso, chutou uma bomba, dessas quando a bola vem no pé do jogador e ele bate de primeira com toda a força. A redondinha, para o nosso azar, acertou em cheio a cara de um policial que por ali passava. Silêncio total. Enfurecido, ele pegou a bola e não mais nos devolveu. Houve muitos xingamentos assim que ele virou as costas, mas, não adiantou de nada. Futebol na rua, só um bom tempo depois.

Dizer que mãe tem antenas é pouco. O aparato que qualquer uma delas possui está mais para radares, capazes de detectar “algo” no ar. Mesmo à distância. Um belo dia, minha mãe perguntou a mim na presença dos meus irmãos: cadê a sua bola, Eduardo?

_ Minha bola?

_É, sua bola! Nos entreolhamos com a seguinte certeza: Ferrou!

_Mãe, a gente tava jogando uma partida, aí a bola acertou a cara do guarda e ele ficou com ela! E não quis devolver!!!

_ Quando foi isso?

_ Ih, já tem um bom tempo!!!

_ Pois eu vou agora, atrás dele! E vocês, vem comigo!

Chegando à delegacia, demos de cara com o infeliz.

_ Quem é, meus filhos, que tomou (ela fez questão de usar esse verbo!) a bola de vocês?!

(Em coro): _ Ele, mãe!

– Eu? Não fui eu não!

– Foi ele, mãe! Aí já havia quatros dedos apontados para ele. Cinco com o da minha mãe!

Pois o senhor, trate de devolvê-la agora (o agora de mãe é atemporal!), se não, eu vou chamar o delegado pro senhor!

Nem preciso dizer que a gorduchinha voltou debaixo do meu braço como um troféu! Mais rápida que a comunicação de celular hoje, a garotada toda ficou sabendo, quase em tempo real, que o futebol na rua voltaria com tudo no mesmo dia.

Meu amigo Aécio Sena, contou-me recentemente que, na pressão do dia a dia, tantas demandas e coisas pra resolver, ele às vezes se lembra que teve uma infância maravilhosa.

Sejamos assim, sempre que possível, meninos e meninas a brincar com nossas lembranças!

Dedico esse pequeno texto a todos os meus amigos de infância!Praia

Anúncios


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s