Senhas

Estou começando a desistir de querer gravar minhas senhas. Não porque eu tenha uma memória ruim! São tantos números, letras e estabelecimentos…

Escutei algumas vezes o Rubem Alves dizer um verso da Adélia Prado de que ele gostava muito, e que só ele dizia com toda aquela solenidade:

“Aquilo que a memória amou fica eterno”.

Sim, não é possível amar minhas senhas!

Não bastasse isso, também comecei a me esquecer qual é o usuário! Sou eu, sou eu! Eduardo_ Augusto? Ou Edu_1984… ou será 1985? O aniversário do meu pai ao contrário + o antigo número de telefone da nossa casa? Não me lembro!

Que eu não me veja em apuros quando mais precisar! Senhas

Anúncios

Bebê a bordo

Acho que foi a Martha Medeiros quem disse que ” quase todo mundo tem uma história com aeroportos”. Concordo com ela. Se não teve, provavelmente um dia terá.

Eu estava sentado, aguardando o meu voo, quando, quase à minha frente parou um jovem pai carregando um bebê e aquelas sacolas que, principalmente, os pais de primeira viagem levam pra lá e pra cá.

Mas, e a mãe? Ela é tão essencial que fica difícil imaginar a cena sem sua presença…

Mais tarde, já dentro da aeronave, quem aparece? O pai com aquele pequeno ser fofinho. Mas aí, claro, você vai imaginar: ah, eu tava aqui lendo, a mãe já passou lá pra trás!

Durante a viagem, eis que escuto um choro vindo lá do fundo. Confesso que fiquei apreensivo. Não por mim! Mas, aquilo não foi muito à diante! Ufa!

Assim que todos sairam, perguntei à aeromoça:

_ Por acaso, aquele senhor estava sozinho com aquele bebê?

_ Estava, sim!

_ Mas, o neném só deve ter uns 10 meses!

_ Pro senhor, ver!

Nesse dia entendi a expressão “Bebê a bordo!” É, o amor é para os fortes!

bebê a bordo


Homenagem aos professores

Dona Nicota

Tatiana BelinkyProfessores

Foi nos anos finais da década de 40. (Há tanto tempo!) Meu primogênito Ricardo completara 6 anos de idade, e resolvemos matriculá-lo no primeiro ano primário da Escola Americana, do já então tradicional Mackenzie College, que ficava a três quadras da nossa casa. E Ricardinho, que era uma criança tímida e um tanto ensimesmada, não gostou nem um pouco da experiência de ficar “abandonado” num lugar estranho, no meio de gente desconhecida uma coisa para ele muito assustadora. E não houve jeito de fazê-lo aceitar tão insólita situação. Ele se recusava até mesmo a entrar na sala: ficava na porta, “fincava o pé”, sem chorar mas também sem ceder… Eu já estava a ponto de desistir da empreitada, quando a professora da classe, dona Nicota, se levantou e veio falar conosco. E todo o jeito dela, a maneira como ela olhou para o Ricardinho, o timbre e o tom da sua voz, a expressão do seu rosto e até a sua figurinha baixinha, meio rechonchuda, não jovem demais, muito simples e despojada, causaram imediatamente uma sensível impressão no menino. A tensão sumiu do seu rostinho, seu corpo relaxou, e ora vejam! ele respondeu com um sorriso ao sorriso da dona Nicota!

Vem ficar aqui comigo ela disse.

Você vai gostar. E acrescentou, para minha surpresa, Eu mesma vou levar você para a sua casa. E amanhã cedo, eu mesma vou buscar você, para vir à escola comigo.

Eu não sabia como agradecer. E nem foi preciso o que dona Nicota disse, ela cumpriu. E durante vários dias, até semanas, ela passou pela nossa casa, pouco antes do início das aulas, e levou o Ricardinho pela mão, a pé, até a escola e a sua sala. E o trouxe de volta, da mesma maneira. E até quando, certo dia, o menino estava adoentado e não pôde ir à escola, ela voltou para lhe dar uma “aula particular”, em casa para ele não se atrasar no programa. Tudo isso na maior simplicidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo…

O Ricardinho adorava a dona Nicota e não era para menos. Dona Nicota era a mais perfeita e linda encarnação da “professora primária” ideal a mais nobre e fundamental das profissões: a de ser a primeira a preparar uma criança pequena nas suas primeiras incursões na vida real com competência, dedicação, compreensão, paciência e carinho. E a consciência plena de estar dando à criança uma verdadeira base para o futuro cidadão.

Por que estou contando tudo isso a vocês, hoje? Porque, no Dia do Professor, eu senti que não poderia prestar maior homenagem a todos os “mestres-escolas” do Brasil do que incluí-los nesta “crônica-tributo” a dona Nicota, exemplo e paradigma de uma modesta e maravilhosa professora “montessoriana” e um grande ser humano.

Ricardo saiu de sob a asa de dona Nicota lendo e escrevendo. E hoje, jornalista, tradutor e escritor, esse avô de três netos continua se lembrando de dona Nicota, com carinho e gratidão.

Essa dona Nicota que a estas horas deve estar dando aulas montessorianas aos anjinhos do céu.

Crônica de Tatiana Belinky, escritora. Publicada na revista Nova Escola.


Infâncias

Minha infância em Ouro Preto-MG foi muito rica. Como a da maioria das pessoas que viveram ou vivem no interior, brinquei muito: joguei bola e birosca na rua, andei de carrinho de rolimã, soltei pipa…. A gente se divertia muito! Não é força de expressão, não.

Uma das histórias que mais me marcou na Praia do Circo era a nossa saída de casa à noite, para catar escorpiões nos bancos de pedra da praça. A criançada toda se reunia em volta dos irmãos Luiz e Ricardo, que executavam a tarefa com maestria. Sem medo nenhum, eles tiravam dos esconderijos, com palitos desses de churrasquinhos, essas pequenas criaturas tão temidas. Colocavam-nos em seguida, em vidros de maionese que, aos poucos, iam enchendo. Era mágico e assustador ver tão de perto todas aquelas garras e ferrões.

Tamanha era a quantidade colhida, que mesmo o mais corajoso dos homens, ao ver aquela cena, pensaria duas, três vezes, antes de chamar a namorada para ali sentar. Não me perguntem o que era feito depois com os escorpiões! Verdade é que, nunca, nenhum de nós daquela turma foi picado.

Outra vez, jogávamos futebol à noite na rua, bem em frente onde hoje fica a prefeitura da cidade. Para vocês verem que criança não tem hora pra brincar. Carro, só de vez em quando passava um. Os chinelos eram as traves e artilheiros não faltavam.

Certa vez, no meio de toda aquela empolgação, um colega nosso, chutou uma bomba, dessas quando a bola vem no pé do jogador e ele bate de primeira com toda a força. A redondinha, para o nosso azar, acertou em cheio a cara de um policial que por ali passava. Silêncio total. Enfurecido, ele pegou a bola e não mais nos devolveu. Houve muitos xingamentos assim que ele virou as costas, mas, não adiantou de nada. Futebol na rua, só um bom tempo depois.

Dizer que mãe tem antenas é pouco. O aparato que qualquer uma delas possui está mais para radares, capazes de detectar “algo” no ar. Mesmo à distância. Um belo dia, minha mãe perguntou a mim na presença dos meus irmãos: cadê a sua bola, Eduardo?

_ Minha bola?

_É, sua bola! Nos entreolhamos com a seguinte certeza: Ferrou!

_Mãe, a gente tava jogando uma partida, aí a bola acertou a cara do guarda e ele ficou com ela! E não quis devolver!!!

_ Quando foi isso?

_ Ih, já tem um bom tempo!!!

_ Pois eu vou agora, atrás dele! E vocês, vem comigo!

Chegando à delegacia, demos de cara com o infeliz.

_ Quem é, meus filhos, que tomou (ela fez questão de usar esse verbo!) a bola de vocês?!

(Em coro): _ Ele, mãe!

– Eu? Não fui eu não!

– Foi ele, mãe! Aí já havia quatros dedos apontados para ele. Cinco com o da minha mãe!

Pois o senhor, trate de devolvê-la agora (o agora de mãe é atemporal!), se não, eu vou chamar o delegado pro senhor!

Nem preciso dizer que a gorduchinha voltou debaixo do meu braço como um troféu! Mais rápida que a comunicação de celular hoje, a garotada toda ficou sabendo, quase em tempo real, que o futebol na rua voltaria com tudo no mesmo dia.

Meu amigo Aécio Sena, contou-me recentemente que, na pressão do dia a dia, tantas demandas e coisas pra resolver, ele às vezes se lembra que teve uma infância maravilhosa.

Sejamos assim, sempre que possível, meninos e meninas a brincar com nossas lembranças!

Dedico esse pequeno texto a todos os meus amigos de infância!Praia