Senhorita Pressa

Senhorita Pressa levantou-se da cama num pulo só, tomou um banho e logo depois de terminar a maquiagem, se olhou no espelho e disse para si mesma:  Como você está “boni…” e saiu apressadamente de casa sem completar a frase.

O trânsito, como de costume, estava do que jeito que ela mais gostava: tudo tão rápido que nem dava para ver os rostos das pessoas, as flores no jardim, ou o céu. Depois de chegar ao prédio onde funciona aquela repartição em que quase nada funciona, pegou o elevador. Nem percebeu que era hora de descer no andar onde trabalha. Sua cabeça estava repleta de pensamentos, talvez, o olhar estivesse até um tanto apagado, mas ela não estava nem aí.

Reunião de Diretoria. Quem escuta alguém? Todos falam, todos gesticulam. Muitos acham que sabem tudo! Alguns olham para o relógio de pulso. A meta mais desejável é ganhar dinheiro o mais rápido possível, no menor tempo possível. Nem sempre se chega num acordo quando existem problemas! 

Hora do almoço. Senhorita Pressa está só. Foi para o restaurante e se esqueceu de chamar algum colega de trabalho. É que, em seguida, ela precisa pagar a conta de telefone e o cartão de crédito, passar na farmácia, ligar pra mãe e… o que mais? Certamente haveria um algo mais para fazer, quem sabe? Lembrar-se aonde se está, naquela hora mais sagrada em que se vive. A todo instante. Então, ela comeu rapidamente sem sentir o gosto que tinha a alface e a cenoura. Sem saborear o suco de acerola e muito menos, sem sentir aqueles macios grãos de lentilha se desfazerem em sua boca. O celular toca. Ali. Não se pode nem mais comer em paz entre os próprios pensamentos! Não! Aquele senhor precisa que ela diga a que horas e em que dia ela visitará sua fábrica!

Senhorita Pressa voltou para o trabalho, mas, não sem antes, deixar as roupas que comprou, dentro do carro. Agenda tomada durante o resto do dia. Visitar os clientes. Alguns indecisos, outros muito apressados. Por que se tem de correr tanto? — pergunta a si mesma.

Exausta, depois de árdua maratona, Senhorita Pressa chega em casa e já liga a televisão enquanto mastiga um sanduíche de mussarela e presunto. A campanhia toca. É a vizinha querendo saber se ela pode emprestar o ferro de passar roupas. Ora, ora, ainda tem gente que passa roupas ao cair da noite! Senhorita Pressa, olhando para a televisão vê que passam rápido as imagens. Vende-se rápido, fala-se rápido, beija-se rápido. Sem contar as abrobrinhas que se diz na TV. Sem contar que não está fazendo mais sentido isso! A vida está tão parecida comigo — pensou ela.  É melhor tomar um banho! Estou cansada!

Momentos depois…, Senhorita Pressa chegou até a varanda de sua casa como se não quisesse nada. Olhou o céu cintilante de estrelas. Esta, resplandece para mim —pensou. Ali ela ficou em brilho, junto de sua estrela. O vento acariciou seu rosto; foi secando seus cabelos e ela ficou tão jovem… Caminhou sentindo suas pernas e seus pés. O corpo flutuava entre as coisas da casa. O coração pulsava no tempo certo. Então, ela pensou: —Não existe mais tempo para correr… Tenho no agora… tenho no agora… E parou de pensar…

Fiquei sabendo da história de Senhorita Pressa um dia desses. Antes de jogar no lixo os muitos papéis que me chegam e já não me servem mais, deparei-me com uma carta sua. Comovente e bela. Senhorita Pressa não quer se parecer mais com o mundo. E nem quer que o mundo se pareça com ela. O que deseja? Ela me escreve enfaticamente: —Preciso me casar! Ter filhos, sonhar, amar, brincar. Não precisar mais ser eu mesma! Quero o instante!  E aí, andar pelas ruas com passos firmes e seguros tocando o chão que sempre foi meu; mergulhar meu corpo na serena tranquilidade dessa hora, enquanto avisto com olhos claros o meu viver. 

Nessa pressa escrevo para contar sua história. Nessa calma…

30/03/05


Toy Story

Toy Sory é um desenho muito legal! O terceiro filme da série é ainda mais especial. Um tributo à inteligência humana. É impressionante o nível de detalhes desses desenhos animados, tanto na fotografia, como no roteiro, onde acontecem diálogos ricos de significados.

Quando se tem filhos, é fácil descobrir que assistir a um desenho mais de 50 vezes é algo totalmente possível. Foi o que aconteceu comigo quando vi e revi Madagáscar, outro grande sucesso. Até hoje, quando surge uma oportunidade, me pego percebendo algo em alguma cena que, até então não tinha visto.

A cultura de massa é capaz de produzir beleza, mesmo a despeito de toda crítica e temos de dar a mão à palmatória. Isso me fez lembrar da campanha publicitária de uma famosa marca de cosméticos e que tem como lema: “Acredite na beleza”. Entendi a campanha. Beleza = cosméticos = felicidade + autoestima. Mas, vendo por outro lado, não é preciso acreditar na beleza. Ela se faz presente. O filósofo alemão Kant escreveu: “belo é o que agrada sem conceitos”.

É maravilhoso saber que existem pessoas talentosas produzindo e inventando coisas tão bacanas para crianças e adultos. Nossa inteligência e sensibilidade merecem!

09/02/11.