O ar que a gente respira

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Há uns anos atrás, minha filha teve uma crise de bronquite. Na madrugada, fomos monitorando a situação, porém, chegou um momento em que decidimos levá-la ao hospital. No caminho, ela perguntou dentro do carro: porque eu tenho de ir pro hospital? Só porque eu não tô respirando? Só por isso?! Pensei comigo depois: sim, filha, só por isso! Porque você é o ar que a gente respira! Um abraço a todos os pais!

Eduardo Augusto

10/08/14


Um filósofo leve

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Tive a oportunidade de estar pelo menos três vezes com Rubem Alves. Na primeira delas, em 1995, em Ouro Preto- MG. Ele estava no auge de sua produção literária, seus livros e palestras ganhavam uma audiência que só aumentava a cada dia.

Ele tinha a capacidade de dizer as coisas mais importantes com um humor que se apresentava despercebidamente. De repente uma conversa sobre a razão do existir se direcionava para um verso de Cecília Meireles, Adélia Prado, Fernando Pessoa e outros. Rubem era capaz de estabelecer pontes entre o real e o imaginado, entre filosofia e literatura, entre o cotidiano e a poesia; despertando naqueles que o escutavam ou liam, o nostálgico sentimento da beleza e da infinitude. Uma flor, um pássaro, um jardim, uma cebola, uma caixa de brinquedos, uma sala de aula; temas de muitos dos seus textos, descortinavam o nosso olhar para o caleidoscópio da vida, que assim ganhava novas cores, sons e ritmos à luz de detalhes inusitados.

Muitas de suas histórias ficarão para sempre na memória de seus admiradores e das novas gerações. Uma delas em especial, ele gostava sempre de contar: “Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.

Rubem Alves, poeta também crianças. Gostava de estar junto delas investigando o mundo, montando quebra-cabeças, desmanchando outros, com especial atenção a essa fantástica lógica que habita o universo infantil e revela dele suas mais instigantes e belas explicações.

Eu, um jovem estudante de filosofia, resolvi me aproximar do Mestre, ao final daquela palestra em Ouro Preto e pedir a ele um autógrafo. Ao vê-lo tão de perto, impressionou-me o brilho do seu olhar.  Estendi a mão ao cumprimentá-lo. Ele perguntou meu nome e disse: _ Uma alegria, Eduardo! Feliz, respondi: _ Espero revê-lo outras vezes!

Não reparei num primeiro instante, o que ele havia escrito para mim, pois mais pessoas se achegavam. Momentos depois, quando fui ler o que estava no papel, não entendi uma palavra sequer.

Por uma feliz coincidência, eu o encontrei na saída do grande teatro e com o livro aberto na dedicatória disse a ele: “Rubem, não consigo entender sua letra!” Ele sorriu e falou: “tem horas que nem eu entendo!”

Colocou os seus óculos e disse com toda solenidade: Há filósofos leves e pesados, há filósofos leves que fazem voar. Leia o “Direito de Sonhar de Bachelard”. Leia “Asssim Falava Zaratustra” de Nietzsche. Filosofia pode ser divertido!

Não me esqueci de seus conselhos!

Aqui, minha pequena homenagem a esse ser humano tão especial! Ficam os ensinamentos deste grande Mestre e que muitas e muitas gerações conhecerão através de seus livros, entrevistas e palestras. Um legado de amor à vida, à beleza e à poesia. Siga em paz, no caminho da Luz, Rubem Alves.

 Eduardo 

20/07/14


O futuro

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Hoje, quando fazia o “Para Casa” com minha filha, ela me disse: pai, precisamos procurar a definição de duas palavras dentre as que podem ser escolhidas na atividade.

Escolhi gaveta. Ela escolheu futuro. Eu havia dito que ela não precisaria ir ao dicionário, já que podíamos tentar descobrir juntos o significado das palavras e o seu pai também saberia responder.

Será que minha memória é uma gaveta? Acho que a de todo mundo é: uma imensa gaveta. Sim, com ajuda dela a definição desse objeto tão corriqueiro veio na hora: lugar de guardar coisas!

Então a Clara me perguntou na sequência: o que é o futuro, pai?

Instantes de silêncio!

_ O futuro é o que virá – respondi de pronto!

_ O que virá?

_ O que pode, ou não acontecer – completei!

Então, em meio a perguntas e respostas filosóficas, me lembrei da música Aquarela, de Toquinho: “Um menino caminha e caminhando chega num muro e ali logo em frente, a esperar pela gente o futuro está… e o futuro… é uma astronave que tentamos pilotar”.

O futuro é agora, filha!

 Eduardo .

03/04/14

 


Universo possível

Babaloo

Era um dia lindo de sol. Até aí, tudo bem. Acabara de levar minha filha na escola. Dei um beijinho nela, recebi outro de volta. Eu estava feliz. Tardes ensolaradas de inverno são um refresco para a memória, quiçá, pras dores deste mundo. Entrei no meu carro. Acelerei dentro do que me era permitido. Mas, ao colocar e tirar o pé do freio, tive a sensação que ele estava colado ao pedal. Fiz um pequeno esforço para voltar com o pé, (nessa fração de segundos), para o acelerador. Justo eu que estou precisando andar mais rápido…

Em frente aonde moro uma constatação: eu pisara há pouco num chicletes “Babaloo”. O cheiro de tutti-fruit chegou ao meu nariz com a mesma velocidade com que raciocinei _ tirar essa “plastra” da minha bota não vai ser fácil. E não foi mesmo. Quem sabe um experiente entalhador de madeira com um bom formão?

Dá pra imaginar que, ao sair de casa você pisará numa goma de mascar no chão, derretida pelo calor do sol? Em plena 2ª feira? Bem naquele dia em que você irá viajar e tem um monte de coisas pra fazer?

Convenhamos, dentro de um universo possível, melhor será contar com um beijinho de sua filha!

Eduardo

10/09/13


Tem gente que…

Reunião

Fui à reunião de condomínio. Há muito tempo não acontecia uma. E com tantas pessoas presentes! Além disso, era preciso escolher o novo síndico. Muitos assuntos, muitos detalhes para acertar e um vizinho chato para atrapalhar. Esse, claro, não apareceu. No decorrer daquele inusitado encontro alguém disse: “Tem gente que deixa o portão aberto até o alarme apitar”. Muitos concordaram! Outro mais na frente falou: “tem gente que não amarra o lixo direito”. Cabeças acenaram que sim! Por outra acusação um deles foi identificado: o do 402. Mas, ele também não estava lá. Vez ou outra a frase aparecia: tem gente que…. e todos, incluindo esse que vos escreve, ficavam quietos, como se não fosse nada com eles… O filósofo francês Sartre escreveu: “o inferno são os outros.” Que o novo síndico (candidatura espontânea e única) encontre pela frente o céu. É esperar pra ver.

Eduardo

02/06/13


Radiante

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“O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
(…) E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto…”

Fernando Pessoa

Se Cazuza cantou: Vago na lua deserta das pedras do Arpoador…” Marcinha preferiu caminhar por ali, com plena consciência, em busca do pôr do sol. Num lugar que há tantos inspirou e há de inspirar.

Nada como chegar a um fim de ano vendo essa grande maravilha da natureza, o Astro Rei; a brilhar no derradeiro dia do ano, sobre mansos e bravos, preocupados e relaxados, alegres e tristes. Iluminada luz!

Ver e não sentir. Como isso é possível? Primeiro a gente olha. Como está na plaquinha, que muitos nem lêem quando chegam à Pedra do Arpoador. Não importa…

É fim de tarde, é fim de ano e um novo começo brilhará com certeza em nossos corações, porque podemos fazer mudanças, transformações. Deixar o velho e o antiquado para trás. Envelhecer com sabedoria, rejuvenescer com alegria. Tempo de fazer as pazes consigo mesmo.

Dedico esse texto à minha amiga, Márcia.

Um radiante Ano Novo pra você e sua família!

Eduardo

07/01/13


Barulhinho bom

Chuva

Meu pai adorava dormir ouvindo barulho de chuva. Ele dizia: “Ô coisa boa! Escuta!

_ O que tem, pai?

_ Escuta! E abria um largo sorriso!

_Dá bença sua mãe, dorme com Deus, meu filho! Deus te abençoe!

Quantos poetas a cantaram! E quem não viu aquela maravilhosa cena do filme “Dançando na chuva”, com o Fred Aster. Meu pai era o meu Fred Aster, só que dormindo! Embalado pelo som de cada gotinha que caia do telhado, dormia como uma criança.

Doces lembranças de um tempo que volta. Chove lá fora.

Dedico esta pequena crônica ao meu pai.

http://www.youtube.com/watch?v=bzQfrvIZW98

http://www.youtube.com/watch?v=nqlo53ifIHI

Eduardo

07/01/13