O movimento e a vida

Tive paralisia infantil por volta de um ano e meio, por isso, desde  pequeno iniciei tratamentos fisioterápicos. Recordo-me claramente dos cuidados recebidos, dos exercícios e de andar por uma passarela, onde à frente estava um espelho. Via no rosto daqueles profissionais a sincera alegria por acompanharem minha evolução. Desde 1989, a pólio foi erradicada do Brasil. Fato bastante recente, não é mesmo? Um flagelo que atingiu milhões de crianças e consequentemente suas famílias. Há quatro anos atrás, levei pela primeira vez minha filha Clara para tomar a preciosa gotinha! Naquele momento, senti uma forte emoção, dessas que ficam gravadas no coração. Hoje é maravilhoso vê-la correndo para os meus braços, correndo pelo mundo. Confesso que ela quase sempre me chama pra vir junto. Claro que não poderia perder essa bela oportunidade!

No final de 2002 comecei a apresentar um cansaço sem explicação, já que até então eu andava bastante pra todo lado, subia escadas, enfim, tinha bastante disposição durante todo o dia. Após consultar um especialista fiquei sabendo que eu apresentava um quadro de Síndrome Pós-Pólio. A explicação: os neurônios remanescentes começam a ficar com preguiça, porque estão executando um trabalho que teria de ser feito por toda aquela turma (de neurônios) que parou com a pólio. Sem gente para trabalhar, o corpo começa a apresentar fadiga, dor e cansaço muscular, dentre outros sintomas. Para aliviar tudo isso, fisioterapia com exercícios de baixo impacto, hidroterapia, momentos de repouso. Entre idas e vindas interrompi por algum tempo o tratamento, retomando-o de vez em quando, até que; em maio deste ano, firmei o propósito de investir mais em minha qualidade de vida. Como me disse um médico amigo meu: “Eduardo, você precisa chegar pelo menos até os 80 anos, para dar um diploma à sua filha e levá-la até ao altar!” Tenho de concordar com ele!

A fisioterapia é uma arte, mas é também uma ciência, cujos fundamentos têm por finalidade conhecer a estrutura e a mecânica do corpo para diagnosticar, tratar e prevenir doenças, restaurar movimentos e devolver ao paciente seu lugar na sociedade. Busca um entendimento global do ser humano, em multidisciplinaridade com outras áreas da saúde. Como arte, é conduzida por este profissional atento: o fisioterapeuta. É ele que acolhe, abraça e responde desde o início por esse desejo enorme de devolver, como um presente, a saúde aos pacientes, porque sabe também, do valor da sagrada energia da ação. Ele olha nos olhos, estende e segura a mão, dá o braço, acompanha cada passo, acolhe. Enquanto atua, reflete. Transforma pequenos gestos em movimento. Chega a produzir uma grande revolução, mas, sem alarde. O fisioterapeuta senta junto, fica do lado, escuta muito. E faz desse escutar mais do que um ideal. Estuda, reflete de novo, aprende mais, preocupa-se; conhece mais de si e do ser humano; seja criança, jovem, adulto ou pessoa idosa. O fisioterapeuta volta para casa todos os dias com a consciência tranqüila, porque sabe que a vida é movimento!

Fisioterapeuta, parabéns pelo seu dia! Por tantas vitórias! Continue seguindo em frente, com dignidade, força e fé!

Eduardo Augusto B. Santos

Publicado na revista Nova Fisio. Número 82. Edição outubro 2011.

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5 Comentários on “O movimento e a vida”

  1. Natália Alves disse:

    Oi Eduardo

    Primeiro, obrigada pela visita ao meu blog (http://nnoticia.wordpress.com) e também pelo comentário.

    Fiquei emocionada com esse texto, é uma história de superação. Cuide sim da sua saúde, pois sem ela não é possível fazer nada.

    abçs

  2. Nadja disse:

    Olá Eduardo,tudo bem?
    Fiquei muito emocionada quando recebi seu e-mail.
    Fico muito grata e feliz por saber que você se lembrou de mim!
    Parabéns! O seu texto ficou ótimo!
    Obrigada por todos os elogios feitos à fisioterapia.
    Continue sempre assim, a sua evolução é o nosso sucesso!
    Fique com Deus!
    Abraços.
    Nadja

  3. Diego Terra disse:

    Esse Eduardo é o kra!
    Parabéns!

    Abraços

  4. Thaís disse:

    Parabéns Eduardo,

    Estou no terceiro período do curso de fisioterapia e me senti muito lisonjeada em ler aquela mensagem e perceber que existem pessoas como o senhor que reconhecem nossa profissão. Peço-lhe licença para dizer que são histórias como a sua, que nos fazem pessoas melhores e principalmente, nos fazem adquirir ainda mais a consciência de que devemos dar tudo de nós aos nossos pacientes, carinho, amor, dedicação e buscar cada dia mais conhecimento para ajudá-los em qualquer situação. Particularmente falando, a cada história que leio e ouço como a sua me fazem ter maior certeza da profissão que escolhi para minha vida.


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