2011

Palavras, emoções, gestos e muitos encontros. Tantas coisas vividas em único ano, mas que se eternizam de alguma forma nas lembranças. Dias de chuva, dias de sol. Frio no inverno, cores na primavera. Segue a vida e renasce sempre a esperança! Feliz Ano Novo!

(…)

No supermercado onde fazemos nossas compras um simpático senhor que atende no sacolão diz aos clientes o que há de melhor para consumir. Uma manga docinha de Ubá, o melão que está muito saboroso, a melancia que chegou há pouco. Sem invadir espaço nenhum, muitos acabam comprando os produtos pela confiança que ele passa. Ontem parei ao seu lado, nenhuma palavra. Passados alguns instantes, resolvi perguntar:

_ O que o senhor recomenda para hoje? Ele sorriu e respondeu com uma outra pergunta.

_ O senhor tem criança?

_ Tenho sim!

_ Essa lima tá docinha! Criança gosta é de novidade!

Não é interessante que ele tenha dito isso?

(…)

Não sei quando aconteceu, mas foi no mesmo lugar, no mesmo ponto de táxi. Chego na janela do carro, o motorista de cabeça baixa diz algumas palavras que não entendo. Pensei estar chorando, talvez não estivesse se sentindo muito bem. Depois de alguns instantes ele me vê. Abre a porta. Percebo sua emoção. Ele me pergunta para onde quero ir. Em seguida diz: “O senhor me desculpe é que hoje eu estou muiiiito feliz, muito feliz! Eu realizei um sonho! Não estou nem acreditando! Minha esposa me ligou agora há pouco! Nós vamos conseguir o dinheiro pra comprar aquela casa! Saiu o dinheiro! A gente nem esperava mais! Eu estou muito feliz, o senhor me desculpe! Enquanto seguíamos viagem falava-me de sua felicidade. Sua alegria tornava o mundo permeável e menos cinza. Já pensou se todo problema do mundo fosse encontrar alguém, em estado de graça, não cabendo em si?  Ao final, agradeci pela corrida e sai caminhando, sabendo que a vida tem também suas respostas.

Muitos meses depois, no mesmo ponto de táxi. Outro motorista de cabeça baixa ao volante. Chego perto da porta. Ele me olha com uma cara de poucos amigos. Hesito numa fração de segundos se devo ou não fazer aquela corrida. Entro no carro e ele diz entre os dentes: Que m…! Algo havia ocorrido há pouco e sua insatisfação me fez pensar que melhor teria sido ir de ônibus. Tentei em vão falar alguma coisa, mas havia uma rispidez na sua forma de lidar com aquela situação. Enquanto o carro seguia pela avenida lembrei-me do outro motorista tão feliz com sua sorte! Quão paradoxal às vezes parece a vida. Nem tudo são flores, há dias em que é melhor ficar em casa, quem sabe sem dizer uma palavra, ou até mesmo tirando um cochilo. Desci do carro. Não me lembro se agradeci, acho que não, mas me compadeci daquela pessoa. Como diz sempre minha mãe: “Dias melhores virão!

(…)

Sou grato às pessoas que vem acompanhando meu blog! Muito legal poder compartilhar minha visão de mundo e, mais do que isso, compartilhar tantos momentos interessantes, cenas do cotidiano ou a maneira simples de ser e de viver.

Quero desejar a todos um Novo Ano de paz, realizações, entendimentos e boas vivências!

Um abraço,

Eduardo

29/12/11

 

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Então é Natal

Sempre gostei do Natal e das festividades de fim de ano. Um ciclo se encerra e um novo começo se aproxima. A religiosidade traz novas luzes, cresce a solidariedade, o amor ganha espaço nos corações. É tempo de olhar para trás para ver o que podia ter sido melhor, de olhar para frente e recomeçar.

Da minha infância e adolescência, guardo recordações preciosas dos festejos natalinos. Durante muito tempo minha mãe forneceu a alimentação dos detentos da cadeia de Ouro Preto, Minas, e, todos os anos, no Natal, ela preparava um cardápio especial que era servido por nós e, ali, naquele pequeno espaço, almoçávamos todos juntos. Não sem antes acompanhar atentamente a Dona Naná, beata da matriz de Nossa Senhora do Pilar, muito respeitada que, com suas preces, lembrava-nos da importância dessa festa cristã, levando àquelas pessoas enclausuradas o conforto da fé.

Certa vez, bem próximo a essa época, uma quadrilha de traficantes do Rio de Janeiro foi presa em Ouro Preto. Cheguei perto do carcereiro, da minha mãe e do meu irmão mais velho e perguntei:

– Você pretende abrir as celas?

– Pretendo!

– Você acha que não devo? – Acho! – disse enfaticamente. Ele saiu de perto de nós e percebeu nossa apreensão. Passados uns quarenta minutos, chegou perto de mim:

– Vou abrir as celas!

– Carlos, não faça isso pelo amor de Deus!

– Eduardo, fica tranquilo! Os presos não vão fugir, nem tomar ninguém de refém e já chamei o reforço. Fica sossegado, já conversei com o delegado, com o comandante! Tá tudo certo! Além disso, daqui a uns quinze dias os traficantes vão descer lá do Rio, render essa cadeia e soltar todo mundo! Presta atenção! – pelo tom da conversa, suas palavras me pareciam proféticas!

Então fomos todos para o pátio central, fizemos um círculo e nos demos as mãos. Pra todo lado que se olhava, o que se via era a polícia. Inclusive em cima dos telhados. Minha mãe e Dona Naná, calmamente, como se cumprissem um ritual, encarregaram-se de puxar o Pai Nosso seguido da Ave-Maria. Eu segurava a mão de um dos maiores traficantes cariocas àquela época e, de vez em quando, olhava para ele meio incrédulo enquanto rezava. Assim que terminou a oração ele disse: “Agora libera o rango tia! Tô morrendo de fome!”

Tudo correu bem como me dissera o carcereiro. Vencida toda a tensão inicial, os policiais iam-se revezando aos poucos para desfrutar também daquele gostoso banquete. Treze dias depois a cadeia de Ouro Preto foi rendida. Os traficantes chegaram àquelas distantes montanhas de Minas, fortemente armados e soltaram todo mundo. Não ficou um. Alguns foram recuperados mais tarde, mas toda aquela turma do Rio ninguém nunca mais ouviu falar.

Dedico este texto com todo meu carinho e amor à minha querida mãe, Dona Diva, exemplo de fortaleza, de trabalho e fé. Desejo a você mãe, saúde, paz e muitos anos de vida! Grato por tudo! Pretendo ler para minha mãe esse texto! Como fiz com meu pai Tasciano, quando dediquei a ele um texto meu.

Eduardo

22/12/11


Paciência

“Salve aquele que fala manso e cala alto nos ouvidos. Salve aquele que é poderoso, pois sabe usar bem todos os seus sentidos. E utiliza a paciência pra plantar e pra colher, êh, ôh mãe.

Salve. Gonzaguinha.

Cada vez mais tenho a convicção de que a paciência é uma das mais importantes qualidades que o ser humano tem a desenvolver. Ela é uma espécie de contenção. Se chega a raiva e a própria impaciência, a pessoa se segura, dá um tempo. Minha mãe fala: tem de contar até mil! Confesso que nunca fiz isso! Um, dois, três… deve funcionar bem!

Quando Dona Canô, mãe de Caetano Veloso, completou 100 anos, uma repórter perguntou a ela: Dona Canô como faz para chegar assim a essa idade com essa vitalidade? Ao que ela respondeu: paciência, minha filha, muita paciência!

Algumas pessoas têm essa virtude mais presente, outras, quase não a tem, mergulhando num ciclo vicioso quase imperceptível. São muito reativas. Fazem tempestade em copo d´água ou “soltam os cachorros” como se diz.

A paciência permite avaliar melhor as circunstâncias. Se há ofensas, permite suportar melhor as imperfeições; se há sofrimento, ela dá espaço para a esperança. Necessária virtude que nos faz mais tolerantes, mais brandos e trazem a paz. Torna mais fácil o exercício diário da convivência. Conquistá-la, somente com a prática.

 Eduardo

18/12/11.


Não pare

Devagar se vai ao longe diz o ditado. Nesses tempos de tanta correria em que se dorme bem menos do que se gostaria, lembro-me agora do início do desenho animado Carros. Uma reflexão sobre disputas, amizade, tempo para os amigos, para as coisas boas da vida. O personagem principal, Relâmpago Mac Quen, antes de entrar na pista de corrida está dentro de um caminhão. Tudo está escuro e ele diz: Eu sou a velocidade, eu sou a velocidade! Muito legal a cena e todo o desenrolar da narrativa.

Dia desses eu passava de carro por uma rua quando avistei uma placa de Pare. Acima do dizer, um Não pixado. Não pare era a mensagem. Talvez alguém quisesse gritar: Não pare, não desista. Assim interpretei. Interessante imaginar que o pequeno infrator tenha realizado quem sabe, um grande feito.

Placas de pare são únicas. Mesmo quando vistas por trás são identificadas em qualquer parte do mundo. Na semana passada avistei uma outra. Abaixo do dizer, também pixados, olhinhos e uma boquinha. Pare sorrindo era a mensagem.

Intervenções urbanas no caótico trânsito das grandes cidades. É quando algum gesto poético tenta nos resgatar de alguma cidade esquecida, chamando-nos para uma pausa, um tempo para o sorriso.

 Eduardo

13/12/11.


O diferencial

Certa vez estava descendo uma rua quando encontrei alguns carros subindo em sentido contrário. Não me restou outra saída a não ser pegar a outra pista, pelo que fui seguido por outros motoristas.

Comecei a descer a via, quando percebi que havia um caminhão parado. O motorista fez um sinal e veio muito sério em minha direção. “Meu filho, o caminhão quebrou o diferencial, não vai nem pra frente nem pra trás! Faz um retorno aí, que eu vou ligar pro seguro!” Em seu olhar havia aflição. Em sua voz, o tom de quem sabe encarar inesperados problemas.

Determinados acontecimentos em nossas vidas fazem uma enorme diferença, por isso às vezes, temos de mudar a rota, seguir por outro caminho. Nem sempre há sinais indicativos, em outros momentos, a neblina está baixa, a visibilidade muito ruim. Mas, é preciso seguir em frente, conquistar esse chão que é nosso. Com coragem e fé de que tudo há de se resolver. Isso será o diferencial. 

Eduardo

12/12/11

Dedicado ao meu amigo Luiz Cláudio Circunde.


Entregar

Em muitos momentos de conflito é melhor entregar a rapadura como se diz. Há quem diga que se pode dar o braço a torcer… muito desconfortável, não é? Como me lembrou uma amiga, lição aprendida de seu pai: você quer ser feliz ou ter razão? Saber se colocar no lugar do outro é uma rara e importante qualidade quando o assunto diz respeito às relações humanas. Por isso, a empatia é tão importante.

Minha avó dizia: “nossos defeitos estão escritos nas nossas costas”. Por isso não os vemos. Existe com certeza um ponto cego quando tentamos olhar para nós mesmos sem escapatórias. Defeitos, manias e vacilações são entulho em nossa convivência com nosso semelhante. Podem criar, pouco a pouco, uma camada de sedimentação muitas vezes difícil de detonar.

O caminho em direção a uma pacífica convivência passa pelo autoconhecimento. Tarefa diária capaz de dar a verdadeira dimensão de nossa própria responsabilidade perante a vida e as pessoas. Entregar a rapadura de vez em quando? Só se for para melhorar os relacionamentos.

Eduardo

08/12/11


Sopa de bichinhos, mistura de letrinhas

Crianças pequenas não têm uma propensão natural para obedecer. Muitas vezes vão testar os seus pais até o limite. Tomar banho, alimentar-se ou dormir são situações que não fazem parte de sua programação com horários. Normalmente elas fazem o possível para evitá-las. Não é interessante que isso aconteça tão frequentemente?

Certa vez fomos à médica da minha filha e quando ela nos perguntou como estava a alimentação da Clara éramos só felicidade. Minha esposa exclamou:

_Ela está comendo de tu-do doutora!  A médica sorriu e falou: “isso muda tanto…!” Quase como uma profecia, dias depois nossa pequena não queria mais saber de nada exceto: balas, chocolates, batatinha frita e por aí vai… foi um choque de realidade!

Dias atrás decidimos que era preciso perseverar novamente e sempre. Afinal de contas minha esposa Ana é nutricionista de formação. Não tem como dormir com a consciência tranqüila sem investir de verdade nesse campo dos sabores, das dores e dos amores.

Compramos um pacote de macarrão de letrinhas e outro de bichinhos e partimos para preparar deliciosas sopinhas para a Clara. Nos primeiros dias, foi fácil., mas na semana seguinte… Como era dia de sopa de bichinhos com legumes, era preciso usar de criatividade.

_ Olha o macaco aqui, será que a Clara vai conseguir comer o rabo do macaco?

_ Nhac… nossa ela comeu!

_ E o cavalo? Ah não, o cavalo é muito grande ela não vai conseguir comer ele todo! Nhac…

E assim… colherada a colherada, toda a bicharada foi sendo devorada!

É isso pessoal, criança aprende brincando mesmo. Quem disse que brincadeira não é coisa séria?

Eduardo

16/11/11

Só esclarecendo: não preparamos sopa todos os dias no jantar. Definitivamente, não daria certo.