Profeta Gentileza

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente José Datrino, o Profeta Gentileza, no início dos anos 80. Andarilho das cores e das dores desse mundo, por onde andava chamava a atenção das pessoas para que vivessem em harmonia. Um grande incêndio num circo, em Niterói, no final de 1961, deixou profundas marcas em seu ser e fizeram com que ele desse início à sua missão. Neste trágico acontecimento, adultos e, principalmente, crianças perderam suas vidas. No local, palco de tantas alegrias, ele plantou um jardim e uma horta e passou a confortar os familiares das vítimas com palavras de bondade. A partir de 1970 começou sua peregrinação, inicialmente entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói. Depois, passou por diversas cidades.  A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju, no Rio, numa extensão de aproximadamente 1,5 km, onde colocou suas inscrições que falavam da verdade, da vida e do amor. Anos depois elas foram pintadas de cinza, até serem recuperadas bem mais tarde. Sua chegada a Ouro Preto – MG, terra de forasteiros e gente religiosa, causou grande repercussão. Como um novo Moisés carregava suas tábuas de madeira com inscrições em verde-amarelo onde estampava sua fé. Encontrá-lo por aquelas ruas históricas após as aulas da escola era uma grande festa. Dezenas de crianças e adolescentes ajuntavam-se à sua volta para escutar aquele insólito personagem. Ele também parecia se divertir!

_ Profeta, profeta, o que tá escrito aí? Sem perder tempo lia para aqueles olhos atentos cada uma das inscrições. A mais famosa delas: “gentileza gera gentileza” exclamava em tom solene! Ao final nos alertava: crianças, não fumem! Sabem por quê? Porque o cigarro é a chaminé do capeta! Não tinha nada melhor pra aquela criançada. Todas as vezes em que nos encontrávamos com ele, sempre tinha um para perguntar:  “E o cigarro, Profeta?”

Minha mãe tinha uma pensão onde funcionava um restaurante. Certa vez ele apareceu no portão sem a túnica e o estandarte. Estava de camisa branca e calça social. Parecia um homem comum, exceto, pelos cabelos brancos compridos e a longa barba que revelavam algo de sua estirpe.  Tocou a campanhia. Fui atendê-lo.

_ Sua mãe está? Fale para ela por favor que quero almoçar aqui todos os dias! Pergunte a ela se posso. Fui para dentro de casa contar aos meus irmãos:

_ Vocês não acreditam quem está lá fora! O Profeta! Chegamos ao portão, com olhares curiosos. Ele cumprimentou meus irmãos e se dirigiu a mim novamente:

_ Menino, você falou com sua mãe?

_ Espera aí, vou chamar!

_ Mãe, o Profeta tá aqui! Ele disse que ta querendo pegar um rango todo dia!

_ Já vou, meu filho!

Dedico esse texto a essa figura fantástica que mesmo tantas vezes bravo pela “corrupção dos costumes” _ como dizia _ nos lembrou: “Gentileza gera gentileza. Amor, palavra que liberta!” 

Eduardo Augusto

31/10/11

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Chá

Certa vez eu estava na casa de um amigo quando a filhinha dele de três anos começou a colocar na mesa xicrinhas, pratinhos e copinhos. O pai perguntou:

_ O que você tá fazendo filha?

_ Chá!

_ Hum que delícia! Coloca um pouquinho aqui pra mim!

_ De quê que é esse chá?

_ Uvas!

Eduardo Augusto

31/10/11


Hora de dormir, tempo de acordar

Minha filha Clara tem quatro anos. Dorme quase todos os dias à mesma hora. Desde de que ela nasceu, fomos desligando pouco a pouco a televisão. Até hoje, por volta das 21:30, horário que em que ela já está de banho tomado e de barriguinha cheia, quase não há estímulos áudio-visuais em minha casa. Bem mais cedo a tv já está desligada ou, nem foi ligada, na maioria das vezes. Procuramos brincar juntos sempre que possível e ao final do dia, contar histórias para ela. É verdade que já houve momentos à noite, em que a deixamos assistindo a algum desenho animado. O resultado, quase sempre, foi uma hiperestimulação, interferindo de maneira considerável no seu sono.

Segundo a Antroposofia, ciência criada pelo filósofo austríaco, Rudolf Steiner, as crianças têm uma capacidade incrível de participar dos ritmos da natureza, por isso, normalmente são mais saudáveis e têm mais vitalidade que os adultos. Atualmente, vivemos em uma época em que se brinca muito menos, sobretudo ao ar livre. É comum, em milhões de lares, as crianças passarem horas na frente do computador. Quase como um imã, elas são atraídas por uma tela que pisca sem cessar. Na minha percepção e de importantes especialistas, perde-se muito com isso, justamente porque, estamos deixando de dar a elas a oportunidade de serem crianças, de se movimentarem, de utilizarem seu corpo como extensão do próprio mundo. Nesse sentido, as brincadeiras de roda do passado, as contações de histórias eram e são qualitativamente melhores como elementos de formação para uma pedagogia mais ampla e certamente, menos restritiva e repetitiva.

Devemos dar às nossas crianças, não somente uma boa alimentação farta em frutas, legumes, sementes, água, ar puro; como também e, principalmente, o alimento espiritual da atenção, do cuidado e entender que o mundo para elas é um imenso campo de descobertas e possibilidades.

Nessa cultura tão extrovertida desses dias atuais, faremos bem em cultivarmos nas crianças, pausas e movimentos, de preferência, longe de computadores e televisores. Hora de dormir é hora de dormir, porque sempre haverá o tempo de acordar!

Dedico esse texto a todos os meus amigos da Antroposofia que tanto têm batalhado para que esta ciência chegue cada vez mais aos currículos escolares, lançando uma nova luz sobre o instigante fenômeno humano em sua formação.

Para saber mais, acesse: http://www.sab.org.br/antrop

Eduardo Augusto

24/10/11.

22:30


Normal

Normal

 Você já jogou uma casca de banana pela janela do carro e fez isso pensando que ela é biodegradável? Normal.

Você já jogou um chicletes na rua fingindo não achar uma lata de lixo por perto? Normal.

Você já entrou no elevador e apertou para subir, sabendo que há poucos centímetros de você, do lado de fora, alguém estava quase chegando na porta e uma sutil sensação de felicidade tomou conta do seu corpo? Freud explica. Normal.

Você num determinado dia, querendo comer uma gema de ovo molinha deixou que ela se esparramasse todinha no óleo? Normal.

Você já ofereceu um pedaço de chocolate para alguém torcendo no fundo para ela não aceitar? Normal.

Você já contou pequenas mentiras como se fossem grandes verdades? Normal.

Você já foi no banheiro fazer xixi e ficou com preguiça de lavar bem as mãos? Normal.

Você já esqueceu o nome de um conhecido que te chama sempre, sempre, pelo nome e toda vez que se encontra com ele sente uma pequena aflição? Normal.

Você num restaurante de comida a kilo, já teve vontade de empurrar aquele cara que parece catar ervilhas selecionando as mais verdes? Normal.

Você já acordou de manhã com o despertador e imaginou que cinco minutos serão tempo demais para cochilar mais um pouco? Normal.

Você já deu um bom dia tão sonoro e agradável que até mesmo você se surpreendeu? Nada normal, saiu natural!

Você já jogou comida no lixo como se fosse a última vez? Normal.

Você já bebeu água da garrafinha da geladeira e mesmo esvaziando-a, não a encheu? Normal.

Você já enfiou o seu carro na frente de outro e ainda fez sinal como se estivesse pedindo? Normal.

Você quando digitou sua senha perto de alguém teve a nítida sensação de que a pessoa viu e possivelmente irá utilizá-la? Normal.

Você, no dia do seu aniversário, se sente diferente? Normal.

Você já foi a uma missa, rezando para ela acabar, mesmo antes de começar? Normal.

Eduardo Augusto

23/10/11.  


Néctar

Há uns meses atrás, muito tarde da noite, mais de uma hora da manhã, escutei um menino gritando em dos apartamentos acima do meu. No local, estava acontecendo uma festa com som alto. Já àquela altura, não tão alto assim. Cheguei à varanda e deduzi tratar-se de uma criança de uns seis anos de idade aproximadamente. A cada manifestação sua, os pais respondiam com gargalhadas irritando-o ainda mais. Foi muito fácil deduzir que ele estava com muito, muito sono. Apenas no instante em que a mãe o acolheu, momentos depois, é que ele se acalmou. Porque tive essa percepção imediata e não os seus pais? Deixemos a resposta para depois.

Criança adora brincar e não existe hora pra acontecer se depender dela. Os pais, muitas vezes, têm de se desdobrar para estar junto dos filhos, após um dia exaustivo de trabalho, ou tendo muitas tarefas a realizar. Criança pede muita atenção. É o seu néctar com gostinho de quero mais! Só o amor pra fazer com que tenhamos força e resistência para assim alimentá-los! Bendito amor!

No ano passado tive de faltar ao trabalho para ir ao médico. Estava com uma dificuldade respiratória. Minha filha Clara estudava de manhã e quando chegou em casa, eu lá já estava. Abriu um lindo sorriso ao me ver e perguntou: “papai, hoje você não vai trabalhá?” “Não, hoje eu vou ficar com você!” Após o almoço deitamos juntos. Nessa época ela dormia todos os dias nesse horário. O dia estava friozinho. Enquanto estava ali com ela, me recuperando, pensei: “assim que acordar, vou ao supermercado comprar uma massa para bolo para fazermos juntos hoje à noite!” Um tempo depois, levantei-me antes dela, deixando-a em casa com a babá. Mais tarde, a mãe viajando a trabalho, fomos pra cozinha. Deixei que ela participasse ativamente de cada momento, colocando todos os ingredientes, ligando a batedeira. Ela se maravilhava com tudo. Teve até direito a enfiar o dedo na massa para provar! Num determinado momento, perguntei a ela se queria dormir e ela me respondeu afirmativamente: “não papai, eu quero comer!” Antes de ir para a cama estávamos nós dois na sala, saboreando um gostoso bolo de chocolate!

É isso meus amigos! Que possamos sempre mais, aguçar nosso olhar e nossa sensibilidade para as crianças!

Dedico esse texto, com todo meu amor e carinho, à minha filha Clara (4 anos) nesse Dia das Crianças!

Um abraço.

Eduardo

12/10/11.


O movimento e a vida

Tive paralisia infantil por volta de um ano e meio, por isso, desde  pequeno iniciei tratamentos fisioterápicos. Recordo-me claramente dos cuidados recebidos, dos exercícios e de andar por uma passarela, onde à frente estava um espelho. Via no rosto daqueles profissionais a sincera alegria por acompanharem minha evolução. Desde 1989, a pólio foi erradicada do Brasil. Fato bastante recente, não é mesmo? Um flagelo que atingiu milhões de crianças e consequentemente suas famílias. Há quatro anos atrás, levei pela primeira vez minha filha Clara para tomar a preciosa gotinha! Naquele momento, senti uma forte emoção, dessas que ficam gravadas no coração. Hoje é maravilhoso vê-la correndo para os meus braços, correndo pelo mundo. Confesso que ela quase sempre me chama pra vir junto. Claro que não poderia perder essa bela oportunidade!

No final de 2002 comecei a apresentar um cansaço sem explicação, já que até então eu andava bastante pra todo lado, subia escadas, enfim, tinha bastante disposição durante todo o dia. Após consultar um especialista fiquei sabendo que eu apresentava um quadro de Síndrome Pós-Pólio. A explicação: os neurônios remanescentes começam a ficar com preguiça, porque estão executando um trabalho que teria de ser feito por toda aquela turma (de neurônios) que parou com a pólio. Sem gente para trabalhar, o corpo começa a apresentar fadiga, dor e cansaço muscular, dentre outros sintomas. Para aliviar tudo isso, fisioterapia com exercícios de baixo impacto, hidroterapia, momentos de repouso. Entre idas e vindas interrompi por algum tempo o tratamento, retomando-o de vez em quando, até que; em maio deste ano, firmei o propósito de investir mais em minha qualidade de vida. Como me disse um médico amigo meu: “Eduardo, você precisa chegar pelo menos até os 80 anos, para dar um diploma à sua filha e levá-la até ao altar!” Tenho de concordar com ele!

A fisioterapia é uma arte, mas é também uma ciência, cujos fundamentos têm por finalidade conhecer a estrutura e a mecânica do corpo para diagnosticar, tratar e prevenir doenças, restaurar movimentos e devolver ao paciente seu lugar na sociedade. Busca um entendimento global do ser humano, em multidisciplinaridade com outras áreas da saúde. Como arte, é conduzida por este profissional atento: o fisioterapeuta. É ele que acolhe, abraça e responde desde o início por esse desejo enorme de devolver, como um presente, a saúde aos pacientes, porque sabe também, do valor da sagrada energia da ação. Ele olha nos olhos, estende e segura a mão, dá o braço, acompanha cada passo, acolhe. Enquanto atua, reflete. Transforma pequenos gestos em movimento. Chega a produzir uma grande revolução, mas, sem alarde. O fisioterapeuta senta junto, fica do lado, escuta muito. E faz desse escutar mais do que um ideal. Estuda, reflete de novo, aprende mais, preocupa-se; conhece mais de si e do ser humano; seja criança, jovem, adulto ou pessoa idosa. O fisioterapeuta volta para casa todos os dias com a consciência tranqüila, porque sabe que a vida é movimento!

Fisioterapeuta, parabéns pelo seu dia! Por tantas vitórias! Continue seguindo em frente, com dignidade, força e fé!

Eduardo Augusto B. Santos

Publicado na revista Nova Fisio. Número 82. Edição outubro 2011.


Metáfora do tempo

Em frente à escola da minha filha fica um pipoqueiro muito conhecido. Fui comprar um pacotinho dessa delícia pra Clara e perguntei a ele:

_ O senhor está aqui há muito tempo? 

_  Há 40 anos!

_ Então, o senhor viu muito menino virar doutor!

_ Sim! Respondeu com um brilho nos olhos!

_ E se Deus quiser vou ver essa aí, disse apontando pra Clara! E sorriu!

Fiquei pensando na imensa quantidade de pipocas que ali já estouraram. Elas são uma metáfora desse tempo que não volta, mas que pode ser saboreado deliciosamente!

Dedico essa pequena crônica ao Seu Tonho, que há 40 anos faz a alegria da criançada, de pais e professores do Colégio Padre Eustáquio.

 05/10/11